A CASA DAS MIL CASAS
VIVENCIANDO O PATRIMÔNIO ATRAVÉS DA ARTE
Maria Vittoria de Carvalho Pardal, Adriana Russi Ana Luiza Cordeiro de M. Barbosa, Natália Cardoso Gonçalves
Introdução
Em 1962 o casal Paulo Pardal e Lully de Carvalho escolheu a pequena vila de Barra de São João no município de Casimiro de Abreu/RJ para a compra de um antigo casarão colonial como casa de veraneio. O péssimo estado de conservação dos casarões coloniais desta vila, cujas belezas naturais já inspiraram poetas como Casimiro de Abreu e Carlos Drummond de Andrade, se apresentou como um bom motivo para abraçar a causa de proteger a beleza arquitetônica do local. A ‘caça as antiguidades’ da região, seu restauro e conservação teve então início, assim como o registro iconográfico das paisagens e patrimônio arquitetônico locais. Inúmeras peças que permitem hoje visualizar com riqueza como se vivia e trabalhava foram sendo amealhadas e possibilitam hoje recompor um valioso quadro da vida cotidiana de um Brasil que já não mais existe, mas que sem dúvida ainda influencia nossa história.
Certa vez, ao voltar de uma incursão pelas fazendas da região com objetos e móveis cujo destino seria virar lenha caso não tivessem sido comprados, a filha do casal, na época com quatro anos, perguntou:
– Por que você compra tudo isso e coloca dentro de casa? Já tem tanta coisa…
E seu pai lhe respondeu:
– Porque algum dia nada disso existirá mais, e assim as pessoas poderão ver como as coisas eram.
Embora não entendesse bem, se contentou com a resposta. Hoje, se atordoa com a complexidade que ela suscita.
As formas vivas adoecem, envelhecem, morrem. Artrites, reumatismos, paradas cardíacas. Os objetos, duráveis e sem vida, transcendem aos homens, mortais e transitórios, desde que estes, em suas curtas vidas, os conservem. A rapidez, porém, com que as formas vivas se apoderam das não vivas é espantosa: brocas, cupins, musgo, capim… O grande desafio, portanto, consiste em conseguir organizar uma sucessão de seres mortais interessados em conservar e preservar as coisas.
De fato, estranhamente, as coisas, que dependem inteiramente do homem para existir, são capazes de superá-lo no tempo e perpetuá-lo na morte.
Mas, preservar também é um ato político. Preservar o que? Para que? De que? O que deve ser lembrado pelas futuras gerações? O que deve ser esquecido? Quais os critérios desta seleção?
Nos últimos seis anos, após o falecimento de Paulo Pardal, aquela menina curiosa de quatro anos vem exercitando a difícil arte de preservar sua coleção. Sem dúvida, este passa a ser um grande desafio para aqueles que, preocupados com a preservação de um patrimônio cultural arduamente organizado por um colecionador, se dispõem a atribuir-lhe uma função social após o falecimento de seu idealizador.
Coleção, museu e patrimônio cultural – alguns apontamentos
Se analisarmos o surgimento do colecionismo após o fim da idade média, perceberemos que, entre outros motivos, estava o declínio da crença na vida eterna. O homem passa então a precisar de outras formas para vencer a finitude da morte. Se perpetuar nas coisas, mantendo-as conservadas, passou a ser uma possibilidade de ligar o visível, presente, com o invisível, ausente.
Como escrevem Mario Chagas e Myrian Santos (2002, p.198) os objetos têm um poder de comunicação que não se resume às suas origens, e mais:
Os objetos têm vida longa e a costura de significados que os constitui muitas vezes ultrapassa a capacidade de compreensão que têm tanto curadores quanto visitantes de museus. Isto acontece, por um lado, porque objetos, à guisa de peregrinos incansáveis, viajam no tempo e no espaço e, por outro, porque as transações humanas que lhes dão vida não são ordenadas de forma evolutiva, contínua e cumulativa.
A coleção de objetos (instrumentos, ferramentas, armas etc), arte popular e pinturas, mobiliário, que se encontra abrigada no antigo casarão colonial em Barra de São João é testemunho de uma época, fruto de um trabalho meticuloso e obstinado de um colecionador e de sua esposa pela valorização e preservação do patrimônio cultural brasileiro.
A palavra patrimônio tem raiz latina, patrimonium, usada entre os antigos romanos na referência a tudo o que pertencia ao pai numa perspectiva aristrocrática e privada. Na atualidade, entre sociedades ocidentais, a noção de patrimônio cultural é bastante extensiva e aplica-se a bens móveis e imóveis, materiais e imateriais, natural, genético etc, tendo adquirido desde a formação dos estados nacionais, caráter público.
Muitos autores indicam em seus estudos as inúmeras modificações que o conceito patrimônio, bem como a legislação de preservação sofreram ao longo da história ocidental (Funari e Pelegrini, 2006; Silva, 2003; Lemos, 2006; Fonseca, 2005, Castriota, 2009) .
Para José Reginaldo Gonçalves (2009) a categoria “colecionamento” sintetiza, de certa maneira, o processo de formação de patrimônios, entendidos modernamente como coleções de objetos móveis e imóveis, apropriados e expostos por determinados grupos sociais com determinado propósito.
Chagas e Santos (2002) referem-se ao deslocamento dos objetos de seu lugar de origem como prática constituinte de qualquer coleção. No processo de musealização, ou seja, no processo de deslocamento dos objetos de sua origem para espaços museológicos há uma tentativa de reinvenção do passado. Assim, escrevem:
Reinventar ou reescrever o passado pela via dos museus implica a aceitação de que neles os objetos passam a adquirir vínculos territoriais e de significado diferentes. (idem, p.199)
No contexto das políticas públicas nacionais voltadas à preservação do patrimônio, cabe destacar a recém lançada Política Nacional de Museus que entende o museu como lugar de memória e cidadania. O museu é locus onde ações e narrativas buscam promover a preservação e fruição do patrimônio cultural brasileiro, representativo da diversidade cultural do país. Ela indica que através do contato com objetos é possível despertar no indivíduo reflexões sobre o universo simbólico neles encerrado.
Como, porém, viabilizar que a coleção de Paulo Pardal e Lully de Carvalho, representativa de um patrimônio cultural, seja preservada e passe a ter uma função social?
A possibilidade de tornar este objetivo exeqüível se deu a partir da criação de um Programa de Extensão da Universidade Federal Fluminense – UFF2 denominado “A casa das mil casas”, do qual trataremos adiante. Desta forma, professores, assim como alunos, passaram a contribuir ativamente com este objetivo. Cabe aqui destacar a importância da contribuição teórica da professora Lygia Segala, a possibilidade de criação de um campo de estágio para o curso de Produção Cultural e a existência de bolsas de extensão para alunos envolvidos.
Assim, o casarão tornar-se-á um equipamento cultural que possibilitará narrativas e experiências múltiplas a partir da coleção. Nessa perspectiva, os objetos da coleção são guardiões de outros tempos. Entendidos como vestígios por guardarem sobrevivências do passado, possibilitam a coexistência de diferentes temporalidades, como há muito descreveu Walter Benjamin (1985) e que analisaremos mais adiante.
A coleção Paulo Pardal e Lully de Carvalho
Até o momento foram arroladas 3.000 peças da coleção das quais 1.300 já foram lançadas no banco de dados informatizado. A coleção é composta por mobílias, moedas, instrumentos de trabalho, ex-votos, indumentárias, armas, documentos, objetos de acondicionamento, pesos e medidas, instrumentos musicais, objetos de arte e outros tantos. Essa coleção vem sendo analisada e organizada para tornar-se a principal ferramenta para ações educacionais. Uma coleção privada que se pretende disponível ao público com vistas a atividades que motivem seus participantes a um processo ativo de valorização de sua herança cultural e de construção de subjetividade.
Para a organização do acervo e definição do sistema de numeração mais apropriado, foi feita análise do acervo e sua relação com os objetivos do programa de extensão. A utilização do acervo possibilitará múltiplas abordagens e temas.
O levantamento considerou as seguintes informações sobre cada objeto: o cômodo da casa em que está localizado, a coleção a que pertence, o nome, a temática em que se enquadra, o material e, se necessário, uma observação (por exemplo: se o objeto está precisando de restauro). Também foi estabelecido para cada objeto um número de inventário (corrido e somente numérico) e um número de registro (tripartido, alfanumérico, que informa o local e a coleção do objeto). As informações anotadas em planilhas alimentam um banco de dados informatizado. Cada objeto possui uma etiqueta de identificação, informando o número de inventário (NI) e o número de registro (NR).
O detalhamento dos objetos que constituem o acervo, ainda em fase inicial, consiste na análise desses objetos (sua história, características, origens, procedimentos técnicos etc) e na identificação de elementos que permitam desdobramentos para ações educativas.
As peças foram categorizadas em 10 temáticas: Ofícios da Terra , História Familiar, Barra de São João Antiga, Transformações dos Afazeres Domésticos, Transformações da Luz, Transformações do Som, Transformações das Possibilidades de Uso da Água, Transformações do Mobiliário, Transformações da Medição do Tempo, Peso e Espaço.
Foram identificadas ainda 23 coleções distintas: Armas, Munição, Desenho, Escultura, Estampa, Pintura, Gravura, Objetos Pecuniários, Construção, Acessórios de Interiores, Mobiliário, Utensílio Doméstico, Equipamentos de Trabalho, Insígnias, Comunicação, Documentos, Transporte, Castigo/Penitência, Medição, Artesanato, Porcelana, Amostras/Fragmentos e Instrumentos Musicais.
Para a organização da coleção foi necessária a criação de um banco de dados informatizado. O sistema de gerenciamento do banco de dados criado tem como objetivo principal ser uma plataforma computacional que permita acesso rápido e seguro aos dados do acervo. A partir de um navegador Web, o usuário do sistema pode visualizar detalhes sobre uma peça, tais como fotografia, história, dimensões, material, estado de conservação, entre outros. O sistema permite que o administrador cadastre, exclua e altere peças. É possível também obter diversos tipos de relatórios, como por exemplo, o relatório das peças que necessitam de restauro.
Como porém possibilitar o uso das peças catalogadas de forma socialmente relevante?
A Casa das mil casas
O Programa de Extensão A casa das mil casas considera que conhecer o passado, nossas formas anteriores de inventar a vida, não é, entretanto, um fim em si mesmo. O conhecimento do passado é, antes de tudo, um pretexto, um meio através do qual é possível pensar a transformação social e construir sujeitos históricos capazes de inventar seu próprio futuro. Ao conhecer e aprender a preservar o patrimônio, nos tornamos capazes de inventar novos futuros em que política e poética caminhem juntas na busca de uma sociedade mais democrática e justa.
Ao denominarmos o programa como A casa das mil casas buscamos expressar a multiplicidade de recortes e abordagens que poderão ser trabalhados a partir do acervo, tanto no que se refere às possíveis temáticas sugeridas pelos objetos e às fundamentações teóricas que lhes confiram inteligibilidade, quanto às diferentes linguagens artísticas utilizadas. Desta forma a casa, embora una, torna-se múltipla, pois se transforma de acordo com os diferentes atores sociais que a habitem.
Atende, assim, a toda a riqueza latente na concepção de um verdadeiro Programa de Extensão Universitário, na medida em que é capaz de abrigar projetos de diferentes áreas do conhecimento. No momento encontram-se em desenvolvimento projetos vinculados aos cursos de Produção Cultural e Pedagogia, mas pretende-se que outros cursos da própria universidade em breve se integrem ao Programa.
Um dos principais objetivos centra-se na elaboração de uma proposta metodológica que contemple um conjunto de ações processuais e contínuas, de caráter educativo, social e cultural. Essa proposta visa sobremaneira uma “experiência de qualidade” inspirada na concepção de Walter Benjamin e de John Dewey, a partir do contato do visitante/participante com os objetos da coleção.
Walter Benjamin (1985) em sua análise crítica sobre o desenvolvimento da técnica e sua sobreposição ao homem trata da pobreza das experiências humanas. O homem, “sufocado” com o tipo de vida a que a modernidade o conformou desejaria libertar-se de toda experiência pois:
(…) aos olhos das pessoas, fatigadas com as complicações infinitas da vida diária e que vêem o objetivo da vida apenas como o mais remoto ponto de fuga numa interminável perspectiva de meios, surge uma existência que se basta a si mesma, em cada episódio, do modo mais simples e mais cômodo (…). (idem, p. 119).
Essa subtração da experiência, essa pobreza de experiência da própria existência humana, conduz Walter Benjamin a um questionamento sobre o valor do patrimônio cultural já que a experiência não mais a ele o vincula. É com vistas a desenvolver uma proposta que conduza o visitante/participante da coleção a uma experiência de qualidade centrada não num mero passar d´olhos, numa visita rápida ao casarão e sua coleção, mas num momento de encontro, num momento de memória e construção de subjetividade que o Programa de Extensão da UFF foi concebido.
Benjamin apontou o distanciamento do homem dos objetos do patrimônio. Em geral “mudos” e protegidos do acesso público, os bens culturais guardam “a sete chaves”, para a maioria da população, as informações, sentidos e valores que teriam justificado sua inclusão como patrimônio histórico, artístico, cultural.
Chagas e Santos (2002, p.208) questionam a “capacidade que temos de compreender as relações sociais que constituíram os objetos” expostos num museu. Poderíamos ampliar tal questionamento para outras instituições destinadas à preservação. Objetos, artefatos, mobiliários etc dispostos em exposições representam e expressam processos históricos. Assim, esses autores afirmam que:
Parece razoável admitir que o que faz os objetos saírem do seu silêncio é o interesse do público e que, ainda assim, uma exposição de objetos é mais do que uma exposição de objetos, é também uma mostra de saberes, fazeres, sentimentos, valores, interesse etc. (idem, p.217).
Em sua antropologia dos objetos, José Reginaldo Gonçalves explicita a “função social” dos objetos. Diz ele:
Seja no contexto de seus usos sociais e econômicos cotidianos, seja em seus usos rituais, seja quando reclassificados como itens de coleções, peças de acervos museológicos ou patrimônios culturais, os objetos materiais existem sempre, necessariamente, como partes integrantes de sistemas classificatórios. Esta condição lhes assegura o poder não só de tornar visíveis e estabilizar determinadas categorias sócio-culturais, demarcando fronteiras entre estas, como também o poder, não menos importante, de construir sensivelmente formas específicas de subjetividade individual e coletiva (GONÇALVES, 2007, p. 8).
A partir disso, o programa de extensão pretende aproximar visitante/participante dos objetos que constituem a coleção de Paulo Pardal e Lully de Carvalho para que esses bens culturais sejam re-significados e, assim, permitam a compreensão e re-elaboração de seus sentidos.
Está sendo elaborada uma proposta metodológica na área de educação e patrimônio de caráter educativo com uma abordagem sociointeracionista. Sob esta perspectiva de desenvolvimento humano, embasada em Vygotsky, entendemos que o processo de desenvolvimento se consolidará na relação de troca com o outro, através da interação e da mediação simbólica. Assim, para este teórico, o sujeito é por excelência interativo, pois cria e amplia sua forma de agir no mundo através das relações interpessoais e do contato com o meio, que é entendido como social e cultural. Desta forma, as características intra psíquicas do sujeito são formadas a partir das interações interpessoais e são, portanto, impregnadas do coletivo.
Nesta perspectiva, os objetos são vistos como mediadores da atividade humana que, dialeticamente, além de serem criados pelo homem também participam da produção da subjetividade humana. Ao mediarem as ações humanas com outros homens e com a natureza, produzem, simultaneamente, uma forma específica de existir no mundo, de viver a existência humana. Desta forma, diferentes povos e em diferentes momentos históricos criaram e utilizaram objetos específicos que, por sua vez, modelaram as formas destes povos viverem as relações sociais, os afetos, a cognição.
Debruçar-se sobre os objetos da coleção permite um mergulho no tempo, um deslocamento tempo/espaço que possibilia repensar nossas relações sociais cotidianas atuais. Revisitar os utensílios domésticos do início do século XIX nos remete, por exemplo, a pensar as transformações da condição feminina e de que forma a técnica é capaz de modificar o cotidiano feminino e as relações de gênero.
Com esta finalidade estão sendo pensadas oficinas que se realizarão a partir do segundo semestre de 2010 e acontecerão nas áreas de acesso público do equipamento cultural – galpão e jardins do casarão – e terão a duração de cerca de três a quatro horas. As oficinas demandarão agendamento prévio e envolverão até 30 participantes.
O objetivo principal é, utilizando as peças já catalogadas do acervo, atuar na promoção da construção da subjetividade através da arte, do patrimônio e da relação com o outro, por meio de situações que estabeleçam sentidos e com o recurso de diversas linguagens, tais como a escrita; oral; musical; teatral; corporal; plástica; literária; entre outras.
A arte nesse programa é compreendida como forma de manifestação da cultura humana. Influenciado por Clifford Geertz (1997), tomamos a arte como um sistema melhor compreendido através da apreensão da cultura a que pertence. Nessa abordagem, o significado de um objeto artístico não é um dado natural, mas socialmente construído e compartilhado por códigos estabelecidos entre os membros de cada sociedade humana em que forma e conteúdo compõem uma unidade. Por fazerem parte do curso normal da vida social não cabe entender esses objetos como “meros encadeamentos de formas”.
Dessa forma, na perspectiva de Geertz estudar a arte é explorar uma sensibilidade essencialmente coletiva, cujas bases são a própria vida social. A apreciação da arte (dos objetos, no caso do Programa de Extensão), portanto, inclui habilidades discriminatórias que tanto observador quanto criador têm através da experiência de vida.
A intenção com o Programa é provocar uma experiência de qualidade que pode se dar através da percepção. Para tanto, empregamos o conceito de Dewey (1980) de “ter uma experiência” e de sua compreensão sobre a percepção com vistas a suplantar a pobreza da experiência humana criticada por Benjamin (1985) já destacada anteriormente.
Dewey (1980, p. 89) afirma que a experiência ocorre continuamente pois “(…)a interação da criatura viva com as condições que a rodeiam está implicada no próprio proceso da vida”. Entretanto, apesar das coisas serem experienciadas não se configuram em “uma experiência”, pois as coisas acontecem, uma substituindo a outra. “Há experiência, mas tão lassa e digressiva que não é uma experiência.” (idem, p.93).
Procuraremos, com o programa, oportunizar ao visitante/participante “ter uma experiência” que para Dewey (idem, p.89) se dá quando o “(…) material experienciado segue seu curso até sua realização. Então, e só então, ela é integrada e delimitada, dentro da corrente geral da experiência, de outras experiências.” Nela a situação é tão íntegra que seu fim é realização e não cessação. Por ser um todo a experiência “(…) traz consigo sua própria qualidade individualizadora e sua auto-suficiência. É uma experiência.”
A proposta do programa é possibilitar uma percepção dos objetos. A percepção, segundo Dewey, difere do simples reconhecimento que recai em esteriótipos, esquemas previamente formados, é percepção interrompida antes que essa se desenvolva livremente. A percepção, por outro lado, não é passiva. Permite estudar e “absorver”, é atividade reconstrutora em que a consciência torna-se forte e vívida. Para esse autor, a percepção é um ato, assim descrito:
Este ato de ver implica a cooperação de todos os elementos motores, ainda quando permaneçam implícitos e não se exteriorizem, assim, como a cooperação de todas as idéias acumuladas que possam servir para completar o novo quadro em formação. (DEWEY, 1980, p.102)
E mais:
(…) um ato de percepção processa-se por ondas que se estendem serialmente através de todo o organismo. Não há na percepção, por conseguinte, tal coisa como o ver ou o ouvir e mais a emoção. O objeto ou cenário percebidos ficam completamente penetrados emocionalmente.(idem, p.103)
Essa concepção de Dewey sobre a percepção está na base das oficinas propostas em nosso Programa de Extensão.
A partir do trabalho já desenvolvido com o arrolamento dos objetos em coleções e temáticas estão sendo elaboradas inicialmente cinco oficinas. São elas: 1) O uso social dos objetos, trabalho doméstico e transformação do feminino. 2) Arte popular e Sexualidade: O erotismo mágico. 3) Carrancas, máscaras e o medo. 4) Quanto tempo dura o tempo ao longo do tempo. 5) Poder e dominação: as diferentes formas de subjugar o outro ao longo da história.
O que diferencia as oficinas são a temática, os objetos e os recursos escolhidos. As diferentes oficinas, contudo, seguem um roteiro que as estrutura – recepção, proposição, vivências e encerramento.
Na recepção, momento inicial, todos os visitantes, depois de acolhidos, permanecem juntos. Nesse momento são apresentados ao Programa, seus objetivos e metodologia.
Durante a proposição serão observados e percebidos os objetos. Nesse momento também são explicitadas as vivências que serão realizadas nos laboratórios e as informações sobre a temática específica da oficina. Nele o objetivo principal é elucidar as questões relevantes para que os participantes possam aprimorar o “olhar”. É o momento da percepção, fundamental para o próximo momento que é o das vivências.
Para as vivências, os participantes são divididos em sub-grupos para a participação em dois laboratórios – o de literatura e linguagem e o de artes. Serão os momentos de realizarem atividades com diferentes modalidades artísticas – literatura, artes visuais, música, dança, teatro. Nestes Laboratórios, a temática e seus desdobramentos são os norteadores para que ocorra uma experiência.
No “Laboratório de Literatura e Linguagem”, o trabalho será realizado através da leitura e estudo de textos de referência, como por exemplo, trechos de livros literários, poesias, poemas, crônicas, reportagens, biografias, trechos de filmes e curtas metragens etc. Além disso, haverá um espaço de reflexão e discussão acerca da temática e do conhecimento prévio trazido pelos envolvidos. Em seguida, todos farão uma produção de texto individual, cuja forma e conteúdo ficarão a critério de cada participante. O objetivo nesse momento é estimular a produção da linguagem escrita e promover nos participantes um momento de construção textual prazeroso e significativo. O que se defende, aqui, é um trabalho que foque nas práticas de leitura, produção e reflexão de textos orais e escritos, como uma ação mais participativa e propiciadora de sujeitos ativos.
No “Laboratório de Artes” o momento da vivênvia se dará a partir de diferentes linguagens artísticas (artes visuais, música, dança, teatro). Desta forma procura-se trabalhar com manifestações que estabeleçam uma melhor relação com a temática da oficina em questão e possibilitem um fazer artístico numa experiência em que a prática, a emoção e a cognição não estejam dissociados.
No encerramento, último momento, todos os participantes se reunem novamente no galpão para uma reflexão sobre os laboratórios e a oficina como um todo. Nessa ocasião será evidenciado o que foi experienciado por todos numa socialização de opiniões e sensações.
Partindo do pressuposto que arte é trabalho humano, no sentido marxista da palavra, buscou-se que cada oficina não passasse por caminhos reducionistas do mero reconhecimento. Pretende-se, simultaneamente, compreender historicamente as obras selecionadas e desenvolver a sensibilidade, a criatividade e a imaginação dos participantes, levando em consideração que cada pessoa manifesta suas percepções, emoções e idéias de maneiras diferentes.
Para cada oficina está sendo organizado um portfólio. O objetivo é catalogar todos os materiais, recursos e estratégias que podem ser utilizados e, assim, obter flexibilidade para a execução da oficina com diferentes públicos (crianças pequenas, adolescentes, estudantes do Ensino Fundamental, universitários, moradores de Barra de São João, empresários e trabalhadores locais etc).
Apontamentos finais
Importante frisar que, no momento, as atividades do Programa envolvem dois cursos de graduação da UFF – Produção Cultural (Polo de Rio das Ostras) e Pedagogia (Faculdade de Educação). Para a Produção Cultural tornar o casarão colonial um equipamento cultural auto-sustentável é estudo de caso de disciplina obrigatória do curriculo, numa intervenção prática que envolve os discentes. Com os discentes de Pedagogia o programa funciona como campo de pesquisa teórico-empírico para a realização de monografias e elaboração de materiais educacionais e jogos educativos a partir dos recortes temáticos do acervo que poderão ser utilizados nas oficinas.
Por fim, possibilitar o acesso público a uma coleção privada, nesse caso a coleção de Paulo Pardal e Lully de Carvalho, visa contribuir no processo de democratização cultural. Espera-se que as ações educacionais desenvolvidas a partir dos objetos da coleção permitam experiências significativas e estimuladoras de processos sociais de produção de sentidos, significados e funções a eles associados.
Notas
1.A coleção a que se refere o artigo foi consituída por Paulo Pardal e sua esposa Lully de Carvalho. É composta por mobílias, instrumentos, carrancas, objetos de arte e outros tantos e fica abrigada num casarão colonial em Barra de São João (distrito de Casimiro de Abreu/RJ).
2. Integram o programa a Faculdade de Educação – FEUFF, o Laboratório de Educação Patrimonial – LABOEP, coordenado pela professora Lygia Segalla e o curso de Produção Cultural do Pólo Universitário de Rio das Ostras – PURO/UFF.
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VYGOTSKY, L. S. Formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984.
MINI-CURRÍCULO
Maria Vittoria de Carvalho Pardal – doutora em Psicologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestre em Psicologia Social pela Fundação Getúlio Vargas. Docente da Faculdade de Educação da UFF, é uma das coordenadoras do programa de extensão.
Adriana Russi – doutoranda em Memória Social pela UNIRO, é mestre em Antropologia Cultural pela PUC/SP e graduada em Educação Artística. Docente do Curso de Produção Cultural da UFF no Polo de Rio das Ostras, é uma das coordenadoras do programa de extensão..
Ana Luiza C. de M. Barbosa – discente do Curso de Produção Cultural da UFF, é bolsista do programa de extensão.
Natália C. Gonçalves – discente do Curso de Pedagogia da UFF, é bolsista do programa de extensão.