Tudo indica que 2009 será o ano do “Thank you, Breizil!”. A temporada de shows estrangeiros, aberta por Elton John, promete superar em quantidade e repercussão a de 2008, trazendo, ainda, Alanis Morissette, Radiohead, Kraftwerk, Orishas, Simply Red, B-52’s, Iron Maiden, entre outros. É, sem dúvida, uma boa oportunidade para o Brasil se inteirar melhor do panorama internacional, reforçando laços com alguns ídolos pop do passado, como sir Elton, e conhecendo novas figuras, como James Blunt, até agora famoso, basicamente, pelo sucesso, “You’re Beautiful”. Toda a euforia em torno dos gringos, porém, não é surpresa. Em 2006, numa entrevista ao Diário do Comércio, o empresário Wilson Souto, diretor da Atração Fonográfica, já cantou essa bola, comentando o progressivo abandono da MPB pelas grandes gravadoras (as chamadas majors: BMG-Sony, Emi, Warner e Universal). Segundo suas explicações, no final de 2009 terminaria um processo gradual de extinção de incentivos fiscais, tornando a música brasileira muito menos atraente para essas empresas. “As multinacionais se preparam para virar, fundamentalmente, distribuidoras de música estrangeira. Os mega-shows fazem parte dessa estratégia”, previa, na época. E acertou na mosca. Agora, até ironiza: “Você está vendo o que isso virou? Daqui a pouco até a turma dos barzinhos de lá vem tocar aqui!”. Ironias à parte, Wilson calcula que um show como o da Madonna deva alavancar, por tabela, a venda de 100 a 200 mil discos. É uma bela cifra, na conjuntura atual
A situação, contudo, não ficou necessariamente ruim para a produção nacional. Afinal, com a saída do chamado “dinheiro podre” da MPB, e o consequente desinteresse daqueles que mais se beneficiavam dele, o país está tendo a chance de construir, pela primeira vez na história, uma indústria fonográfica sólida artística e comercialmente. Além disso, que mal há em ouvir e assimilar os sons que vêm de fora? A bossanova nasceu assim…
Texto publicado no Diário do Comércio – SP, em 16 de janeiro de 2008
Que análise você faz dos atuais rumos do mercado de música brasileiro
Wilson Souto: Estamos num momento bastante complexo, com o surgimento das novas mídias digitais, da pirataria, e com os selos e gravadoras independentes crescendo no espaço deixado pelas multinacionais, que se preparam para virar, fundamentalmente, distribuidoras de música estrangeira. Esses dois mega-shows do início do ano, Roling Stones e U2, fazem parte dessa estratégia, assim como os do Santana e dos vários outros astros internacionais que vêm este ano para cá. Eles estão abandonando a música brasileira, mas não querem perder nosso mercado.
O que aconteceu?
Wilson: Depois da queda do incentivo tributário à MPB, eles perceberam que não dava para sustentar os artistas brasileiros naquela ilha da fantasia em que viviam e começam a diminuir os elencos menos lucrativos, ficando só com os maiores vendedores de discos e com os que tinham recebido grandes adiantamentos que ainda não foram abatidos. Os artistas cortados não devem nem entender nada: “Pô, me deram uma limusine há três anos e agora nem renovam meu contrato!”.
Como eram as coisas no tempo da renúncia fiscal
Wilson: Tudo o que as gravadoras investiam em música brasileira saía de graça , o que ajudava muito aos interesses das multinacionais de criar uma imagem de compromissada com a cultura local para melhor vender seus produtos estrangeiros. Aí, a falta de um capital responsável no mercado trouxe uma situação de delírio no mercado. Tinha artistas tratados como marajás, quando o lucro que davam, numericamente, se tirado o efeito ICMS, era nulo. É o caso daqueles caríssimos presentes nas renovações de contrato, como o campo de futebol na Gávea dado ao Chico Buarque ou a Mercedes Benz dada à Simone. Mais tarde, no final dos anos 80, quando eles perceberam que vender música brasileira era um bom negócio, passaram a usar o dinheiro de renúncia fiscal para financiar várias operações interligadas, como a própria produção dos discos os planos de marketing dos artistas. Era só deixar a produção e o marketing a cargo do artista, já que a lei não podia impedir que o artista gastasse seu dinheiro como bem entendesse. Vi isso o tempo todo na Warner.
E o caso dos artistas “inventados” por essas gravadoras, com se dava
Wilson: O dinheiro irresponsável no mercado dava um super-poder ao diretor artístico da companhia. Se ele achasse que você era um tipo bonito e cantava bem, investia uma fortuna. Se desse certo, ótimo; se desse errado, paciência. Não tinha maiores conseqüências. Isso criou um monte de ruídos na música brasileira. Tem uma leva de artistas de proveta feita dessa maneira: Dominó, Kelly Key… Eles não tinham e não têm respaldo popular, eram celebridades passageiras bancadas com dinheiro podre.
As empresas nacionais, não se beneficiavam da renúncia fiscal?
Wilson: Não tanto. Enquanto as multinacionais tinham excesso de dinheiro a ser descontado do ICMS, uma vez sua fração de investimento em MPB era pequena diante de seus outros negócios, a empresa nacional tinha um ICMS apertado e ficava desfavorecida. Então, toda vez que um artista era revelado numa gravadora brasileira, como o grupo Secos e Molhados, as multinacionais ofereciam adiantamentos e luvas astronômicas e o levavam.
Uma nova forma de incentivo pode restabelecer a igualdade de condições no mercado?
Wilson: Acho que, se o governo criasse para o disco nacional uma situação como a do livro, que tem isenção total de imposto por ser produto cultural, daria bastante fôlego para a empresa brasileira. É claro que isso ajudaria também as multinacionais, mas pouco. Duvido que por opção empresarial elas investissem pra valer em MPB, salvo raríssimas exceções. Acontece que aquele desconto de ICMS não saía do bolso, saía do que eles já iam pagar por seus produtos majoritariamente estrangeiros. Agora, precisando gastar dinheiro, eles ficam divididos entre 200 outras opções, e, dadas as suas prioridades internacionais, acho que eles prefeririam canalizar a verba para promover produtos que já têm larga aceitação nos mercados do mundo todo.
E sem incentivo, como fica
Wilson: Do jeito que está, temos crescido, desde 2002, algo em torno de 60% ao ano, mas quero estagnar a gravadora num faturamento anual de R$ 30 a 40 milhões – ainda estou nos R$ 20 mi, com quase 700 discos em catálogo. É que esse crescimento fica muito doloroso, se feito assim, sem capital de giro. Os capitalistas do Brasil não têm a idéia de que a música seja um negócio tão interessante quanto tem potencial para ser. O exemplo que eles têm ainda é o das empresas grandes nacionais que fecharam no tempo da renúncia fiscal: RGE, Chantecler, Top Tape, Tape Car, Copacabana, Continental… É importante que o capital saudável entre na música e que vejam que nós não estamos aqui para mecenato, e, sim, para negócios. Eu aprendi a sobrevivência no mercado de discos com a Continental, que foi vendida para Warner nos anos 90, e posso te garantir: tirando aqueles ruídos, a coisa tem uma certa lógica que funciona!
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