Por José Márcio Mendonça
Ele não cultivava o estilo capaz de inspirar em seus discípulos algo como um “ao mestre com carinho”. Alto, formal, circunspecto, um pouco seco embora cordial, inicialmente inspirava mais temores do que admiração naqueles jovens saindo da adolescência no início dos anos 1960 no Colégio Pedro II no Rio de Janeiro.
A matéria na qual era o catedrático também assustava o grupo de estudantes daqueles alegres tempos de JK, vocacionada a maioria para as três carreiras de prestígio na época. Era difícil ver a utilidade do aprendizado de “filosofia” para quem pretendia ser médico, engenheiro ou advogado.
A obrigação de passar de ano, garantir presença era o único móvel que levava os alunos a não gazetear a aula para discutir política e a efervescência cultural da época ou para alguma atividade de jogos. Nem os modos suaves de sua principal assistente, Circet (t mudo, cujo sobrenome se perdeu no tempo) suavizavam os temores.
Cheio de afazeres, catedrático também na antiga Faculdade de Filosofia da Universidade do Rio de Janeiro, com várias outras atividades públicas, ele dava as aulas teóricas, provocava as mentes mais preguiçosas, e Circet reforçava as explicações os exercícios, em doses cavalares.
No vagar do tempo, quem passou pelos bancos nos quais ensinou o filósofo, crítico literário, professor, pensador da filosofia da ciência Euryalo Vianna Cannabrava (Cataguases (MG), 1908 – Rio de Janeiro (RJ), 1978), principalmente aqueles que estavam na fase de transição para a vida adulta, podem se dar como privilegiados.
Euryalo Cannabrava nos ensinou a pensar, coisa tão rara nos dias de hoje. Seu curso de Filosofia para os alunos do terceiro ano do Curso Científico (era assim que se chamava na época o hoje segundo grau) do Pedro II era de lógica formal. Nunca quis impingir em seus jovens alunos a leitura dos grandes pensadores que ele tão bem conhecia.
Eram centenas de exercícios semanais para que aprendêssemos a raciocinar corretamente, saber juntar fatos, tirar conseqüências, não cair em silogismos, não mergulhar na obscuridade que alguns, hoje mais do que nunca, acham que é sinônimo de conhecimento, de erudição. É simplesmente confusão mental. Ou deliberada complicação para disfarçar pobreza de pensamento.
Sua obsessão era a clareza. A clareza no raciocínio, clareza na comunicação oral, clareza na escrita. Tinha fascinação pela palavra correta, tanto que foi também um crítico literário de uma extraordinária agudeza. Em um de seus livros – Introdução à Filosofia Científica – há uma pequena frase na qual ele define um pouco desta sua obsessão. Ao criticar certas posições dos pensadores idealistas, Cannabrava os qualifica como “mais hábeis em produzir palavras do que em fabricar idéias”.
Segundo os especialistas na matéria, sua maior contribuição ao pensamento filosófico foi a “Teoria da Decisão Filosófica”, seu último trabalho publicado, em 1997, no qual expõe sua filosofia científica gestada em mais de 40 anos. Advogado por formação acadêmica começou a se sobressair quando ajudou, em 1930, a transformar o Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas em Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, órgão do Ministério da Justiça em um Instituto de Psicologia, ligado ao então Ministério da Educação e Saúde. Foi professor de Psicologia aplicada ao Direito e fundou o Instituto de Psicologia da Universidade do Brasil, no Rio capital da República.
Já no fim dos anos 1930 enveredou para suas duas grandes especialidades – a filosofia e a crítica literária, que lhe renderam cadeiras na Academia Brasileira de Filosofia e na Academia Brasileira de Letras, nos tempos ainda em que a ABL, apesar de alguns arranhões políticos, como reservar uma vaga para o ditador Getúlio Vargas, privilegiava os homens de letras de verdade. Sua posição filosófica, que alguns definiam banalmente como marxista-existencialista, com a qual muitos não concordam, renderam-lhe muitas homenagens e alguns dissabores. Ficou famosa uma polêmica de Cannabrava com o escritor católico conservador Gustavo Corção. Mario de Andrade o chamava de meu mestre.
Parte de suas preocupações filosóficas pode ser observada neste texto, no qual comenta um encontro de filosofia realizado no Rio de Janeiro:
“É inegável que os trabalhos reunidos agora nos “Anais” do referido Congresso estão longe de confirmar a existência, no Brasil, de vocações filosóficas de primeira ordem. A maioria das comunicações se caracteriza por singular abstinência em matéria de idéias: os congressistas em geral preferiram debater as questões históricas da filosofia a enfrentar corajosamente os seus problemas. Diversos trabalhos não apresentam qualquer vestígio de originalidade, limitando-se os seus autores a catalogar citações sobre os assuntos mais variados, sem preocupação alguma de coerência e unidade no curso da exposição.
Nada mais lamentável do que essa incapacidade, tão generalizada entre nós, de distinguir o que é simples memorização erudita daquilo que revela penetração crítica e capacidade de análise. Há, sem dúvida, certa resistência ao esforço crítico, que se manifesta através da adesão incondicional aos sistemas especulativos e da recusa obstinada em rever os fundamentos de nossas convicções mais profundas.
Discutindo, há alguns anos, com um amigo que se mostrava exageradamente receptivo aos ensinamentos da filosofia cristã, tive oportunidade de lhe fazer várias perguntas indiscretas. Entre elas, lembro-me de algumas que o irritaram bastante: ‘Se você acredita que Jacques Maritain é um gênio, qual o adjetivo que reservará para São Tomás, em cuja obra o escritor francês foi buscar todas as suas idéias? E se você teima em proclamar que São Tomás é um supergênio, que qualificativo aplicará a Aristóteles, inspirador de pelo menos dois terços da filosofia tomista?’
É claro que essas perguntas ficaram até agora sem resposta.”
Nada mais atual no Brasil onde pensar, ler e escrever claramente é cada vez mais sacrifício. E onde os exemplos vêm de cima.
Na crítica literária, que em certo período ele praticou com regularidade na imprensa, deixou também trabalhos inovadores. Até hoje um estudo seu sobre o livro “Corpo de Baile” de Guimarães Rosa, é utilizado na universidades brasileiras como base de apoio a teses de mestrado e doutorado.
No trabalho intitulado “Guimarães Rosa e a linguagem literária”, Cannabrava disseca o gigantesco ficcionista, mineiro como ele, e diz, entre outras coisas:
“Guimarães Rosa redige os seus recontos como o químico executa reações, o anatomista disseca o órgão e o fisiologista expõe o mecanismo da circulação.”
“A marca autêntica da linguagem de Guimarães Rosa, porém, decorre mais da expressividade e sentido estético do que da certeza de suas origens autóctones. É por isso mesmo que parece ociosa a preocupação de distinguir a contribuição pessoal do autor das suas colheitas como garimpeiro da linguagem brasileira. O melhor é degustar, sem maiores preocupações, essa prosa robusta pelo que ela traz em si mesma, na força de seu ritmo e na sugestão numerosa do seu poder comunicativo.”
Infelizmente, a obra livresca de Euryalo Cannabrava está inteiramente esgotada, não é reeditada há muitos anos e até em sebosé difícil encontrar seus livros. Artigos e outros textos estão dispersos e possivelmente alguns até perdidos. Não há nenhuma biografia conhecida do autor nem nenhum estudo crítico sobre sua produção.
Pobre país que trata assim os seus mestres.
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