Publicado por: iniciativacultural | 04/11/2009

Um Graciliano de graça

Por José Márcio Mendonça

O alagoano Graciliano Ramos é conhecido – e reconhecido no Brasil – como escritor, autor de obras-primas como “Vidas Secas”, “Angústia”, “Infância”, “São Bernardo”. E também como militante político de esquerda, atividade que lhe rendeu um período de cadeia nas prisões getulistas da Ilha Grande e o extraordinário “Memórias do Cárcere”.

Há, porém, uma outra faceta fascinante do velho Graça, como o escritor e jornalista (foi editorialista do extinto “Correio da Manhã”), pouco difundida e comentada e nem por isso menos relevante na vida nacional – a de homem público. Cioso e eficiente em suas atividades. Graciliano foi prefeito de Palmeiras dos Índios, no interior alagoano, diretor da Imprensa Oficial e diretor da Instrução Pública do Estado.

Na função de prefeito, produziu, obrigado pelas leis a prestar contas, uma série de relatórios ao governador do Estado, contando sua experiência, as dificuldades enfrentadas e relatando suas realizações e frustrações. São três documentos, nada burocráticos. Um exemplo de transparência e retidão no trato da coisa pública – e com fantástica qualidade estilística. Foi graças a esses relatórios, levados aos meios literários da então capital da República, o Rio de Janeiro, que o escritor Graciliano Ramos acabou descoberto.

No meio de números, obrigatórios em tais balanços administrativos, há observações saborosas, provocantes. Leiam-se algumas:

“Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis.
Evitei emaranhar-me em teias de aranha.
Certos indivíduos, não sei por que, imaginam que devem ser consultados, outros se julgam autoridade bastante para dizer aos contribuintes que não paguem impostos.
Não me entendi com esses.
Há quem ache tudo ruim, e ria constrangidamente, e escreva cartas anônimas, e adoeça, e se morda por não ver a infalível maroteirazinha, a abençoada canalhice, preciosa para quem a pratica, mais preciosa ainda para os que dela se servem como assunto invariável; há quem não compreenda que um ato administrativo seja isento de lucro pessoal; há até quem pretenda embaraçar-me em coisa tão simples como mandar quebrar as pedras dos caminhos.
Fechei os ouvidos, deixei gritarem, arrecadei 1:325$500 de multas.
Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca.
Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome.
Não me fizeram falta.
Há descontentamento. Se minha estada na prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos.”

Ou, ainda:

“Empedrarei, se puder, algumas ruas.
Tenho também a idéia de iniciar a construção de açudes na zona sertaneja.
Mas para que semear promessas que não sei se darão frutos?”

E também:

“Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos. Saíram os que faziam políticas e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem ou não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a eles.
Não sei se administração do município é boa ou ruim. Talvez pudesse ser pior.”

Graciliano foi eleito, não nomeado. Nunca gostou do posto, porém. Desde o princípio pensou em renunciar, como relata em carta à mulher, Heloisa, um mês depois da posse. E de fato renunciou, dois anos depois, por causa da Revolução de 1930 e também por fastio e desilusão:

“A Prefeitura? Sim, foi ela que interrompeu a viagem que eu tinha certa para amanhã. A propósito: que história é essa de posição elevada? Enganaram-te, minha filha. Para os cargos de administração municipal escolhem de preferência os imbecis e os gatunos. Eu, que não sou um gatuno, que tenho na cabeça uns parafusos de menos, mas não sou imbecil, não dou para o oficio, e qualquer dia renuncio. Por tua culpa, meu amor, toco num assunto desagradável e idiota. Isso não vale nada.”

Ele volta ao tema quatro dias depois:

“Consideras-te rival da Prefeitura, minha filha? Que lembrança! Há apenas entre mim e ela uma ligação precária, por três anos, mas se achas a ligação indecente, desmancho tudo e mando-a pentear macacos.”

Mais de 5.600 prefeitos, entre novatos e reeleitos, tomaram posse no dia primeiro. Poderiam se mirar no velho Graça. Ganharíamos nos costumes e nos usos da língua pátria.

(Pena que o espaço tenha se esgotado. Quem quiser mais, há um livro sobre o assunto, esgotado infelizmente, com os relatórios, adendos e excelentes comentários e histórias sobre Graciliano, editado pela Record e organizado por Mario Hélio Gomes de Lima.)

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Originalmente Publicado no Diário do Comércio de São Paulo.

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